
O canto da sereia
Publicado em 20 de abril de 2026
"O lucro ou os ganhos de capital obtidos a partir da exploração dos recursos naturais são o grande problema.
Mas o que é o dinheiro afinal?
Da perspectiva do Planeta, ele não existe. É algo criado pelos seres humanos. O dinheiro é uma relação social de confiança e poder, podendo ser acumulado ou trocado.
Vamos voltar um pouco no tempo.
Nas Américas, os povos originários não possuíam o conceito do dinheiro, apenas utilizavam outros elementos da Natureza como sementes de cacau ou dentes de algum animal como meio de troca. Do outro lado do oceano, os reis e donos do poder detinham o controle e poder de emissão monetária.
Ao atribuir um padrão monetário como base para as trocas, tornou-se possível acumular capital, ou seja, acumular poder de troca entre as pessoas. O que fez com que muitas delas desenvolvessem o desejo de acumular cada vez mais capital. E então, em algum momento no passado, a necessidade de sobrevivência deixou de ser por recursos naturais como água e comida, e passou a ser apenas sobre o dinheiro.
O problema é que, como explorar a Natureza é uma das formas mais fáceis e antigas de criação de valor monetário, muitos indivíduos e coletivos passaram a viver de forma a contribuir negativamente para a vida como um todo.
O discurso amplamente difundido e justificativa para a exploração da Natureza é que o desenvolvimento econômico irá beneficiar a comunidade e atores envolvidos. E essa narrativa é parcialmente falsa, e parcialmente verdadeira.
Ela é verdadeira pois de fato pessoas que vivem no modelo de sociedade que depende de capital podem extrair valor e recursos para vender em forma de outros produtos. É o caso de quem extrai madeira nativa ou petróleo para vender, ou de quem desmata para plantar monocultura e então vender seu único produto. Alguém que desmata para plantar braquiária e vender gado, por exemplo, extrai valor de um negócio inexistente caso o ecossistema nativo fosse preservado, o que movimenta a economia e traz renda para os praticantes.
Mas ela também é extremamente falsa, se considerarmos o impacto no todo, e não na vida apenas daqueles indivíduos que estão explorando. Todos os animais que ali viviam perdem seu habitat, com isso a biodiversidade e serviços ecossistêmicos como a polinização são afetados. Após as queimadas e queima de combustíveis fósseis, o carbono vai para a atmosfera, o que gera um prejuízo não só para a vida local, mas também para toda a vida do Planeta. O mesmo para a água, com risco de escassez hídrica. O lucro é privado e o prejuízo é compartilhado entre todos do presente e futuro. Portanto, o desenvolvimento de curto prazo local, pode se tornar um retrocesso global de longo prazo."
Este artigo é um trecho do livro Planeta Regenerativo.
